Funk carioca sabor acarajé

O bonde do tigrão - Márcio de Souza

Leonardo Lichote

Quinta-feira, 22 de fevereiro. Em Salvador, uma multidão se reunia atrás do trio elétrico A Barca para curtir o carnaval, que por lá já estava rolando. Para delírio da molecada baiana, no alto do trio os rapazes do SD Boyz bradavam "tá dominado, tá tudo dominado". O refrão é a melhor maneira de definir a presença do funk no carnaval baiano de 2001. Artistas como Ivete Sangalo, Banda Cheiro de Amor e Beto Jamaica se renderam ao ritmo e acrescentaram ao repertório para este carnaval os sucessos "Dança da motinha", "Cerol na mão" e "Tapinha", entre outros. O É o Tchan prepara um CD apenas de funk, que deve sair em abril. As músicas do Bonde do Tigrão tocam sem parar em todo o estado. E, para completar, o DJ Marlboro, figura histórica do funk carioca, também vai marcar presença nas ruas da Bahia. Marlboro, que apresenta dois programas nas rádios de Salvador, anima trios na capital e também em Porto Seguro.

Micael Herschmann - Gustavo StephanApesar de já existirem alguns bailes nas periferias baianas desde meados da década de 90 e um ou outro sucesso esporádico, neste verão o funk chegou com força total a todas as classes sociais. O pesquisador Micael Herschmann, autor do livro O funk e o hip hop invadem a cena, acredita que o que acontece agora na Bahia "é só um ciclo da indústria fonográfica, um modismo". "Mas", completa ele, "é claro que há uma identificação entre a conotação erótica e bem humorada das letras do funk com aquelas de grupos como É o Tchan e Terrasamba. Essa proximidade entre a malícia carioca e a baiana ajuda a explicar o fenômeno."

No Farol Folia, uma prévia do carnaval que aconteceu no dia 13 de janeiro em Salvador, a Banda Cheiro de Amor testou a receptividade do funk junto ao público baiano - na época não se sabia como eles iam encarar a novidade. "Foi 100%", resume Beto Almeida, produtor da Banda. "Essa é a vantagem do carnaval baiano, o público esté de braços abertos para a música dançante, não importa de onde ela venha. Aqui não tem bairrismo", exalta.

DJ Marlboro - Gustavo AzeredoPara o DJ Marlboro, o sucesso avassalador do ritmo na Bahia veio do próprio amadurecimento do gênero. "Antes, as apresentações eram mais frias, os arranjos eram piores. Agora temos uma seleção muito boa de artistas fazendo funk, dando mais consistência ao movimento", explica o DJ. Outro motivo que ele identifica não tem nada a ver com a qualidade da música. "Tudo que vem do povo é rejeitado pela elite, mas depois de um tempo o preconceito acaba. O mesmo aconteceu com o samba, não é?".

colaborou Priscila Henriques