Mangueira luxuosa cobre avenida de verde
 e depois de rosa

Depois da falsa Mangueira (a Imperatriz, que levou várias alas de verde e rosa) deixar a Avenida, foi a vez da real Estação Primeira pisar na Passarela do Samba. Desde o início da apresentação a escola foi ovacionada pelas arquibancadas, terminando o desfile como uma séria concorrente da Beija-Flor na disputa pelo título. A verde e rosa desfilou homenageando Dona Neuma, falecida no ano passado. O intérprete oficial, Jamelão, que esteve doente, puxou o samba. Dona Zica, por sua vez, que também teve problemas de saúde no sábado, apareceu na Sapucaí feliz da vida e foi a grande surpresa da comissão de frente. Ela desfilou homenageando Dona Neuma.

Foto de Marcelo CarnavalO desfile luxuoso, mostrou a cara da Mangueira moderna: brilho, tecidos nobres, plumas, carros riquíssimos. O carnavalesco Max Lopes inovou na divisão das cores da escola pelas alas e separou o verde do rosa. A escola passou pela avenida em dois blocos monocromáticos. A atualidade do desfile dessa Mangueira moderna contrastou com a Mangueira da homenagem prestada pela Imperatriz - a carnavalesca Rosa Magalhães revisitou a verde e rosa tradicional, dos anos 60.

Foto de Ricardo LeoniA bateria de Mestre Russo inovou fazendo uma paradinha, deixando que apenas o náipe de surdos tocasse por alguns instantes. O enredo "A seiva da vida" mostrou a história dos fenícios, povo que muitos acreditam ter chegado ao Brasil bem antes de Cabral e animou a platéia, que passou o desfile acenando com banderinhas.

Outro destaque, o modelo Paulo Zulu, desfilou no abre-alas e provocou agitação entre as mulheres na Passarela do Samba, que não resistiam e gritavam, batiam palmas e acenavam para ele.

Foto APJá no final do desfile, os componentes da escola tiveram dificuldade em botar o último carro na Avenida causando um buraco na passarela e obrigando os integrantes da escola a correr durante o desfile. O adereço de camelos, composto por três pessoas, que andavam de pernas de pau, caiu na pista e também pode prejudicar a escola.


 

 


Dona Zica presta homenagem a
Dona Neuma na comissão de frente

Foto de Marcelo Carnaval

Viviane Rosalem

Como era de se esperar, a comissão de frente da Mangueira fez uma apresentação impecável. Mas não foram os dez homens e as quatro mulheres - que, coreografados por Carlinhos de Jesus, representavam uma possível paz entre judeus e palestinos - que fizeram da comissão uma atração especial. Foi a aparição de Dona Zica, de 88 anos, de dentro de um baú - surpresa guardada até o início do desfile - que fez a diferença na apresentação verde e rosa.

Numa homenagem emocionante à amiga morta no ano passado, a cada aparição - Dona Zica saiu do baú dez vezes durante o desfile - a primeira-dama da Mangueira jogava uma rosa na direção do cartaz onde se lia o nome de Dona Neuma. Dona Zica, que sofreu uma crise de hipertensão na semana passada e só recebeu alta do médico na manhã do desfile, foi para a avenida cercada de cuidados: o baú onde estava tinha dois ventiladores e um kit de primeiros socorros.

"Enquanto eu estiver viva, vou desfilar na Mangueira. Nestas horas, a saúde fica bem", declarou D. Zica, que há 72 anos pisa na Sapucaí à frente da escola. "Achei engraçado desfilar desta forma mas só em estar aqui já é maravilhoso", completou.


A voz da verde e rosa

Fernando Moreira

O diabetes, que custou uma internação quase um mês antes do carnaval, não foi o bastante para interromper uma seqüência de 50 anos puxando o samba da Mangueira. Na concentração, Jamelão não queria saber de doença:

- Ninguém tem data certa para morrer, então o negócio é aproveitar a vida. Todo desfile é sempre a mesma emoção. É como beber uma dose de uísque de boa qualidade, sempre uma delícia.

Acreditando na vitória da Mangueira antes mesmo de a bateria começar a esquentar os tamborins, Jamelão foi conduzido para o alto do caminhão de som. A escola, em reverência ao mestre de 88 anos, deixou-o sentado em uma cadeira com ornamentação dourada. E foi acomodado no trono mangueirense que o puxador, vencedor de cinco Estandartes de Ouro ao longo da carreira, passou os 71 minutos de desfile.

A voz já não tinha mais o mesmo vigor de outros carnavais, mas o inconfundível timbre de Jamelão marcava a cadência do samba ao lado de outros puxadores. E assim o mito vivo da verde-e-rosa foi ovacionado por toda a avenida, das arquibancadas do povão aos camarotes mais sofisticados. Se a Mangueira levantou o público, com chances reais de chegar ao título, deve muito ao talento e à entrega de Jamelão.