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Mangueira luxuosa
cobre avenida de verde
e depois de rosa

Depois da falsa Mangueira
(a Imperatriz, que levou várias alas de verde e rosa) deixar a Avenida,
foi a vez da real Estação Primeira pisar na Passarela do Samba.
Desde o início da apresentação a escola foi ovacionada pelas arquibancadas,
terminando o desfile como uma séria concorrente da Beija-Flor na
disputa pelo título. A verde e rosa desfilou homenageando Dona Neuma,
falecida no ano passado. O intérprete oficial, Jamelão, que esteve
doente, puxou o samba. Dona Zica, por sua vez, que também teve problemas
de saúde no sábado, apareceu na Sapucaí feliz da vida e foi a grande
surpresa da comissão de frente. Ela desfilou homenageando Dona Neuma.
O
desfile luxuoso, mostrou a cara da Mangueira moderna: brilho, tecidos
nobres, plumas, carros riquíssimos. O carnavalesco Max Lopes inovou
na divisão das cores da escola pelas alas e separou o verde do rosa.
A escola passou pela avenida em dois blocos monocromáticos. A
atualidade do desfile dessa Mangueira moderna contrastou com a Mangueira
da homenagem prestada pela Imperatriz - a carnavalesca Rosa Magalhães
revisitou a verde e rosa tradicional, dos anos 60.
A
bateria de Mestre Russo inovou fazendo uma paradinha, deixando que
apenas o náipe de surdos tocasse por alguns instantes. O enredo
"A seiva da vida" mostrou a história dos fenícios, povo
que muitos acreditam ter chegado ao Brasil bem antes de Cabral e
animou a platéia, que passou o desfile acenando com banderinhas.
Outro destaque, o modelo Paulo Zulu, desfilou
no abre-alas e provocou agitação entre as mulheres na Passarela
do Samba, que não resistiam e gritavam, batiam palmas e acenavam
para ele.
Já
no final do desfile, os componentes da escola tiveram dificuldade
em botar o último carro na Avenida causando um buraco na passarela
e obrigando os integrantes da escola a correr durante o desfile.
O adereço de camelos, composto por três pessoas, que andavam de
pernas de pau, caiu na pista e também pode prejudicar a escola.

Dona Zica presta
homenagem a
Dona Neuma na comissão de frente

Viviane Rosalem
Como era de se esperar, a comissão
de frente da Mangueira fez uma apresentação impecável. Mas não foram
os dez homens e as quatro mulheres - que, coreografados por Carlinhos
de Jesus, representavam uma possível paz entre judeus e palestinos
- que fizeram da comissão uma atração especial. Foi a aparição de
Dona Zica, de 88 anos, de dentro de
um baú - surpresa guardada
até o início do desfile - que fez a diferença na apresentação verde
e rosa.
Numa homenagem emocionante à amiga morta no
ano passado, a cada aparição - Dona Zica saiu do baú dez vezes durante
o desfile - a primeira-dama da Mangueira jogava uma rosa na direção
do cartaz onde se lia o nome de Dona Neuma. Dona
Zica, que sofreu uma crise de hipertensão na semana passada e só
recebeu alta do médico na manhã do desfile, foi para a avenida cercada
de cuidados: o baú onde estava tinha dois ventiladores e um kit
de primeiros socorros.
"Enquanto eu estiver viva, vou desfilar
na Mangueira. Nestas horas, a saúde fica bem", declarou D.
Zica, que há 72 anos pisa na Sapucaí à frente da escola. "Achei
engraçado desfilar desta forma mas só em estar aqui já é maravilhoso",
completou.

A voz da verde
e rosa
Fernando Moreira
O
diabetes, que custou uma internação quase um mês antes do carnaval,
não foi o bastante para interromper uma seqüência de 50 anos puxando
o samba da Mangueira. Na concentração, Jamelão não queria saber
de doença:
- Ninguém tem data certa
para morrer, então o negócio é aproveitar a vida. Todo desfile é
sempre a mesma emoção. É como beber uma dose de uísque de boa qualidade,
sempre uma delícia.
Acreditando na vitória da Mangueira
antes mesmo de a bateria começar a esquentar os tamborins, Jamelão
foi conduzido para o alto do caminhão de som. A escola, em reverência
ao mestre de 88 anos, deixou-o sentado em uma cadeira com ornamentação
dourada. E foi acomodado no trono mangueirense que o puxador, vencedor
de cinco Estandartes de Ouro ao longo da carreira, passou os 71
minutos de desfile.
A voz já não tinha mais o mesmo vigor
de outros carnavais, mas o inconfundível timbre de Jamelão marcava
a cadência do samba ao lado de outros puxadores. E assim o mito
vivo da verde-e-rosa foi ovacionado por toda a avenida, das arquibancadas
do povão aos camarotes mais sofisticados. Se a Mangueira levantou
o público, com chances reais de chegar ao título, deve muito ao
talento e à entrega de Jamelão.
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