Natureza, poder e paz sob as asas da águia da Portela

Foto Fernando Maia

A Portela terminou o desfile exatamente aos 80 minutos, depois de ter se apressado no último quarto para chegar no tempo exigido pelo regulamento. Para se ter uma idéia da correria, quando completou uma hora de apresentação, a escola ainda tinha duas alas e um carro alegórico para entrar na avenida. Na dispersão, o clima chegou a ficar tenso antes que se tivesse certeza que a escola conseguiria cumprir o horário. No final do desfile, o alívio tomou o lugar do nervosismo.


A escola, quinta a desfilar, levou para a Sapucaí o enredo "Querer é poder", em que celebrou as forças da natureza para mostrar a relação entre desejo e poder. O enredo explorou nos seus oito carros, a força do pensamento, da natureza, da mente, da fé, da magia, do dinheiro, os podres poderes e, por fim, o poder do povo. A Portela, que amarga um jejum de 16 anos sem levar um título, foi mais uma escola a abordar a paz. E fez um desfile mais técnico, mais moderno, com 34 alas e 3.500 componentes.

A tradicional águia da Portela, no carro abre-alas, foi a maior já apresentada em um desfile da escola, com 15 metros de cumprimento por 6 de altura. A águia, inspirada no Palácio do Catete, representa o poder do Governo.

Uma outra versão da águia, holográfica, era projetada no chão à frente do carro que conduz a Velha Guarda. No chão, apresentando os históricos compositores, Paulinho da Viola cantava empolgado. O cantor e a velha guarda foram bastante aplaudidos pelos fãs. Outro ex-integrante voltou à escola de Madureira: Clóvis Bornay, 81 anos, há 30 sem desfilar na escola, saiu no segundo carro. A técnica de ginástica Olímpica, Georgete Vidor, que ficou paraplégica depois de um acidente, desfilou em pé, como referência ao poder da vontade.

A fantasia da comissão de frente da Portela foi baseada nos figurinos do filme "O homem da máscara de ferro", com Leonardo de Caprio, enquanto a ala das baianas representava o poder da criação. No carro "Podres poderes", o carnavalesco Alexandre Louzada usou mísseis para falar do poder da destruição. A escola também mostrou todos os elementos da natureza - ar, água, fogo e terra - nas alegorias.

Pouco antes do desfile, o quinto carro, "Mágicos poderes", teve um de seus braços presos em uma árvore na avenida Presidente Vargas e foi desmontado. Para não prejudicar a apresentação, uma ala foi adiantada até que o carro pudesse entrar na avenida.

Paulinho da Viola e velha guarda da Portela

Nara Franco

A reverência é total. Paulinho da Viola veio à frente da famosa águia da escola de Madureira. Elegante e sereno, Paulinho era aplaudido, saudado e homenageado. Na águia, a velha guarda, tão reverenciada e homenageada quanto o sambista. O amor pela escola foi até o úlimo minuto do desfile. Paulinho não deu entrevistas até a bateria ultrapassar a linha final, em exatíssimos 80 minutos. Tia Surica não agüentou. Desceu do carro e, na pista, comandou a escola de seu coração:

- Estou emocianada demais. Sou portalense até morrer.