Um Nelson Rodrigues lúdico
solta a criatividade da
Unidos da Tijuca

Foto de Ivo Gonzalez

A Unidos da Tijuca apresentou o enredo "Nelson Rodrigues, pelo buraco da fechadura", em homenagem ao dramaturgo e jornalista pernambucano, num desfile com muita criatividade e bom humor, mas não emocionou. O carnavalesco Chico Spinoza fez o que prometeu fazendo um Nelson Rodrigues mais lúdico do que pornográfico e mostrando no Sambódromo uma escola madura. A criatividade das fantasias podia ser sentida nos dentes dourados dos ritimistas da bateria, que representava o Boca de Ouro, um bicheiro do submundo carioca, aos cabelos da ala das normalistas.

Reprodução TV

O ator Miguel Falabella entrou na avenida no carro abre-alas, representando o anjo pornográfico. O Pavão, símbolo da Unidos da Tijuca, que no ano passado havia sido colocado no último carro alegórico da escola, voltou a fazer parte do carro abre-alas.

Foto de Marcia FolettoO carnavalesco Chico Spinoza surpreendeu com a coreografia da comissão de frente, que abordou a peça "Vestido de noiva", uma das polêmicas criadas por Nelson. Na apresentação, debaixo do um grande véu de noiva da destaque saíram homens fantasiados de peste.

O carro "Jornalismo" conta as tragédias acontecidas no jornal do pai de Nelson. Uma delas foi o assassinato do irmão, também jornalista, que morreu no lugar do pai - por um erro da assassina. O outro foi um incêndio.

Foto Marcia FolettoDurante o desfile, um pneu do carro abre-alas da Unidos da Tijuca estourou em frente ao setor 11. Os responsáveis pela harmonia da escola pediram a ajuda de componentes para empurrar o carro e evitar prejuízo para a escola. A atriz Alessandra Negrini, que faz sua estréia na passarela do samba, está no quarto carro da escola, que vem representando o teatro. 

No carro "Pátria de chuteiras", sobre a forte paixão do dramaturgo pelo futebol, com alegorias da Taça Jules Rimet, que o Brasil trouxe para casa no tricampeonato, e vários clubes representados. Faltou no desfile uma alusão mais clara ao Fluminense, time de coração de Nelson Rodrigues.

O ator Claudio Marzo entrou na avenida representando o dramaturgo. A viúva de Nelson Rodrigues, Elza, com 80 anos, também desfilou, sentada, no último carro.

 

Eurico Miranda não aparece no Sambódromo

Fernando Moreira

Freqüentador assíduo da Passarela do Samba nos últimos três anos, o presidente do Vasco, Eurico Miranda, esqueceu o samba e se refugiou em Angra dos Reis. Patrocinador da Unidos da Tijuca, que em 1998 homenageou o centenário do Vasco em seu enredo, o dirigente foi esquecido pela escola. Figura de destaque dos últimos desfiles, Eurico nem foi lembrado pelo diretor de harmonia da escola, que discursou antes da Unidos da Tijuca entrar na avenida. A crise finaceira do clube e as recentes acusações contra Eurico, podem ter pesado na decisão do cartola de não aparecer no desfile.

Nada de Fla x Flu na homenagem ao maior dos tricolores

Saint-Clair Milesi

Quem imaginaria que uma homenagem ao trabalho do jornalista e escritor Nelson Rodrigues não incluiria sequer uma menção ao Fla-Flu, o clássico que "nasceu cinco minutos antes do nada" e que ele ajudou a imortalizar? Pois foi exatamente isso que aconteceu no desfile da Unidos da Tijuca.

Mas qual a razão para tal esquecimento? Seria o fato de o presidente do Vasco, Eurico Miranda - que não é um dos maiores admiradores do Flamengo - ser também o patrono da escola tijucana? Os diretores e o carnavalesco juram que não, e afirmam terem escolhido uma homenagem mais ampla, ao futebol carioca. É bem verdade que no carro "Pátria de chuteiras" predominaram bandeiras do Fluminense e que estavam lá ex-jogadores do tricolor, como Paulo Victor, Vica, Samarone e Didi. E, justiça seja feita, a imagem de Nelson no carro usava um terno branco, com a camisa do Fluminense por baixo - mesmo figurino escolhido por Nelson Rodrigues Filho na avenida.

Seja qual for a razão para a omissão do Fla-Flu no enredo da Unidos da Tijuca, é melhor imaginar que não tenha havido censura no carnaval da escola. Mas não se pode negar, de maneira nenhuma, que o tema não foi explorado em sua plenitude - e isso deve ser lembrado pelos jurados na hora de avaliar o enredo da escola.

É bom mas dura pouco

Julia Sant'Anna*

Tudo o que é bom dura pouco. E desfilar na Sapucaí não poderia ser diferente. Escolher a escola, a fantasia, decorar a letra do samba, ir aos ensaios e ficar duas horas na concentração. Tudo por cerca de 30 minutos na avenida. A gritaria do presidente de ala e do pessoal que trabalha na harmonia faz a gente achar que nada vai dar certo. Como todo mundo quer aparecer e ver os artistas nos camarotes, os mais experientes se posicionam à direita e até brigam pelas posições estratégicas. Quando o puxador finalmente chama a escola, o grito faz com que você se sinta da comunidade desde criancinha. Cruzar a avenida cantando junto com o público é como um filme de Hollywood. Pena que tudo passe tão rápido. Agora é chegar em casa, descansar, passar pelo menos mais uns três dias com o samba na cabeça e torcer para a escola estar entre as cinco campeãs. Porque aí no sábado tem mais!

* a repórter desfilou na escola Unidos da Tijuca